3 SONHOS ESPECIAIS


Comecei a ler relatos de pessoas que ensinavam técnicas de projeção astral e resolvi seguir as orientações delas. Em um destes, li sobre mentores espirituais, que muitos chamam de guias ou anjos da guarda, que auxiliavam em viagens patrocinadas, para se fazer o bem, durante tais supostas viagens pelo mundo espiritual. Um dos conselhos era que se deveria fazer uma oração pedindo proteção do Ser Supremo e a presença deste amparador espiritual, se prontificando a trabalhar em alguma missão de ajuda no plano astral. Eu segui integralmente as orientações, conforme aprendi. Coloquei um som com tons binaurais, de cerca de 8 horas, ao deitar, fiz minha oração e aconteceu o que disseram que acorreria. Despertei lucidez em um sonho em que um homem, vestindo uma túnica branca me apareceu e me levou para um local, tão rapidamente que nem percebi o deslocamento. Lá havia uma casa grande, como se fosse uma escola, com uma porta grande na entrada e várias janelas pequenas. Perto da porta de entrada, havia uma grande árvore frondosa e mais nada. Ao redor da casa era tudo branco, assim como atrás da árvore. Tudo muito claro. Adentrando ao recinto, que parecia ser apenas um grande salão, haviam muitas camas de solteiro, semelhantes a leitos hospitalares, com pessoas deitadas sobre elas. Pareciam enfermos dormindo, necessitando de cuidados e sofrendo dores. Sobre seus corpos haviam como que fumaças negras, concentradas, girando e esvoaçando-se como cabelos longos que se balançam freneticamente sob ação de um vento forte e multidirecional. A pessoa que me levou, de quem não guardo a fisionomia, me ensinou como eu poderia ajudar àqueles que ali estavam deitados. Me disse para colocar a mão esquerda sobre o peito, na região do coração, e esticar o braço direito, com a palma da mão voltada para aquelas estranhas formas escuras acopladas aos corpos dos ali dispostos. Com isso, um raio luminoso saia da palma da mão e insidia sobre as estranhas formas que se dissipavam, trazendo alívio para os sofredores. Depois de fazer isso várias vezes me senti cansado e acabei acordando. Neste momento, eu achei tudo muito interessante pois as dicas e o binaural funcionaram em me induzir à desejada experiência. Mas eu não acreditava que aquilo era real. Para mim, era mera sugestão da mente diante de todas aquelas leituras. Na outra noite eu queria testar mais.
Nesta época, eu dividia minha casa com um amigo e durante um desses sonhos o vi com essas mesmas formas estranhas em seu corpo, embora ele estivesse acordado, vendo algum programa na televisão. Usei  a mesma técnica que aprendi e consegui livrá-lo daquelas “sombras”. Continuei minhas pesquisas, vendo vídeos e lendo relatos. Nas próximas noites continuei com a técnica preparatória, antes de me deitar. Me deparei de novo com pessoas com aqueles cabelos negros grudados e fui usar a técnica. Mas, dessa vez, algo deu errado. Não consegui acertar a fumaça e sim a pessoa, que desapareceu diante de meus olhos. Assustado, acordei e não quis mais usar tal técnica, afinal eu queria ter sonhos em que eu me sentisse bem e não arrependido ou transtornado.
Geralmente, sonhamos com eventos que ocorreram conosco durante a vigília, algo que ouvimos, lemos e focamos nosso pensamento. Mesmo experiências que não lembramos bem, carregadas com imagens, sensações e sons que não percebemos, são assimiladas pelo cérebro, inconscientemente e, durante o sono, são ajustadas às nossas crenças, temores, anseios.  Assim, vale lembrar da frase “orai e vigiai” pois, durante o sono, seus desejos, bons ou ruins, podem se materializar. Às vezes, de forma prazerosa, dando uma sensação de felicidade durante a vigília, mas outros,  desastrosos, como em pesadelos, dando certo desconforto durante o dia. Desta forma, ainda tendo minhas dúvidas sobre o que realmente estava acontecendo com minha mente, tentando usar a racionalidade para desacreditar tudo, acabei me deixando levar pelos desejos e curiosidades. Certa noite, despertei lucidez em uma cidade cheia de pessoas estranhas, homens sem cabelo, alguns fortes, outros deformados, de diferentes estaturas. Me lembrei de um filme, A Origem, no qual durante um sonho, quando alguém despertava lucidez, era atacado pelos personagens no sonho. E exatamente isso me aconteceu. Eu fui surrado, violentado sexualmente. Corri desesperadamente, mas onde quer que eu aparecesse, era atacado. Eu acordava, tentava mudar o pensamento, mas ao voltar a dormir e voltar a sonhar, estava  no mesmo lugar, passando pelas mesmas experiências traumatizantes. Não consegui mais ter paz para dormir. Eu tinha que me levantar, distrair minha mente para, assim, conseguir voltar e dormir sem sonhar com aquilo. Dava certo, com isso me via sozinho, em campos belos, voando pela campina ou sobre uma cidade. O que era agradável, conseguindo terminar minha noite, mas acordando exausto  e pensativo sobre tudo aquilo.
Em uma noite, eu me deparei diante de um local todo em chamas, onde o fogo aquecia minha pele, mas não chegava a me queimar, embora incomodasse. Como eu nunca me queimei – pelo menos não me lembro - não tenho guardado na memória a sensação de dor provocado por isso, mas estava desesperado. De repente, aquele amparador que me apareceu anteriormente, me veio no céu em um cavalo branco, e me pegou pela mão, galopando em alta velocidade, não consegui segurar e comecei a soltar a mão dele, me prendendo à cauda do cavalo, até que despertei realmente. Sempre pensativo, desconfiado, descrente. Ainda hoje eu fico pensativo até que ponto aquilo foi real ou foi mera criação de minha mente.
À medida que fui tendo cada vez mais desses sonhos eu aprendi  que, diante de uma situação de emergência, eu poderia alterar meus batimentos cardíacos e acordar. Com isso, durante pesadelos, eu acordava e  me esforçava  a ficar acordado por um pouco e quando voltava a sonhar, já não estava mais naquela situação. Também me ajudava orar, cantar, ler algo gratificante. Qualquer coisa que mudasse meu pensamento para algo alegre, virtuoso.
Uma situação interessante ocorreu neste período de aprendizado. Eu, depois de ler bastante, vi que algumas pessoas ensinavam técnicas de sonhos lúcidos sem a necessidade de ouvir binaurais com ondas theta. Fui aprender tais técnicas e a usar alguns mantras que facilitassem o processo. Durante o aprendizado, me deparei com dificuldades para me levantar da cama no astral. Vi, certa vez, as mesmas sombras que eu arrancava das pessoas, em mim, na região do umbigo, dificultando que eu levantasse da cama, então, eu acordava. Outra vez,  despertei lucidez, mas não conseguia ver nada, havia uma escuridão plena diante de mim. Não conseguia me mexer e sentia como se eu estivesse preso em um lamaçal. De repente, ouvi como o som de uma corrente metálica sendo arrastada e batendo-se no chão, enquanto alguém se aproximava. Usei a técnica para acordar e consegui. Imediatamente, estava eu na cama, ouvindo um som como se um pássaro estivesse batendo asas dentro de meu ouvido. Era tão intenso que tive que levantar-me e ir ao banheiro olhar no espelho, para verificar se algum inseto tinha entrado no canal auricular. Mas nada havia. Voltei a dormir.
Meu ceticismo é algo complicado, afinal eu fui doutrinado assim. Um conflito, entre fé e razão, constante. Mas, resolvi testar certa noite. Procurei manter meus pensamentos elevados. Segui alguns conselhos sobre movimentação de bioenergias para me proteger. Orei ao Criador Universal, pedi orientação, proteção e esclarecimento. Coloquei um som binaural e usei mantras. Nesta ocasião, eu tive uma experiência das mais lúcidas. Despertei minha consciência em um local bem bonito segundo os padrões que estou acostumado, dada a cidade em que resido. O céu tinha uma luminosidade enorme, tudo era muito claro, quase ofuscante. Havia uma rua larga e uma árvore bonita na entrada desta. De um lado haviam casas semelhantes, todas pintadas em tons claros, estilo americano, uma limpeza incrível. Ao me deparar lá, eu todo desconfiado, percebi perto da árvore um pouco de água. Fui tocar a água para perceber a textura, a sensação de molhado. Toquei o chão limpo e senti a aspereza das pedras que calçavam a rua. Nunca mais eu tive um estado de lucidez tão pleno. Eu podia ver tudo com muita nitidez. Adentrei o local procurando descobrir onde eu estava. Vi duas mulheres na entrada do lugar e perguntei se elas podiam me ajudar. Pareciam evangelizadoras, com roupa social. Elas nem me deram confiança. Eu geralmente não falava com quem via, dessa vez tentei e não se importaram. Eu, embora chateado, segui a rua e encontrei outras três pessoas, sendo duas moças e um rapaz. Me dirigi a ele e perguntei se podia me ajudar. As moças não mostraram interesse mas o rapaz se prontificou.
_ Vocês estão desencarnados ou são projetores? – perguntei ao jovem rapaz de roupa social.
- Somos desencarnados. – respondeu com simplicidade.
- De onde vocês eram?- perguntei para que, quando acordasse, pudesse pesquisar. Ele falou o nome da cidade, mas eu não entendi, nunca tinha ouvido falar. Nisso eu percebi que eu ia acordar. É difícil para mim permanecer nesta estado de consciência por muito tempo. De repente, perdi a consciência, não sei por quantos segundos. Mas lembro de me esforçar, controlando a respiração para permanecer ali.
Quando retornei, uma pessoa saiu de uma casa e seguiu pela rua. Pedi desculpas ao rapaz e disse que eu tinha um problema, que estava desdobrado e não conseguiria ficar ali por muito tempo. Ele me disse: “Eu tenho um material de leitura que você pode obter respostas”. Eu disse que não tinha dinheiro para pagar – até essa época eu não entendia a dinâmica das coisas no plano espiritual. Ele me disse que me dava. Eu disse: “Mas como vou ler? Não tem como eu levar isso comigo”. Perdi a lucidez e acordei em minha cama. Acordei muito pensativo sobre o que havia presenciado. Continuei tendo esses sonhos realistas com plena certeza de estar sonhando. Em muitas dessas experiências, eu estava sozinho e, na maioria das vezes, eu já despertava no lugar, sem saber como cheguei lá. Só aproveitava o momento voando e observando tudo.

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