2 UM POUCO DE MIM

Desde bem jovem, tive uma formação religiosa rígida, dentro de uma denominação cristã não-trinitarista, milenarista e reformista, com grandes restrições ao pensamento livre e com ênfase hierárquica. Havia uma aparente lista enorme de materiais que não se podia estudar, tampouco ler, e ainda maior do que não se podia fazer, com quem não se podia estar, o que não se podia ver e muito menos ouvir. Isso era minha rotina. Assim, cresci com grandes limitações quanto ao conhecimento científico, filosófico e espiritualista que discordasse do religioso que me doutrinou. Uma visão materialista da realidade espiritual me privava de verdades ocultas e gerava dúvidas torturantes sobre a existência, o amor de Deus e sobre o que é ser humano. Hoje, eu valorizo tudo o que aprendi e a forma como me foi transmitido, mas antigamente não pensava assim. Acreditava que, ao morrer, eu chegaria ao meu fim existencial. Sendo assim, nada restaria senão o pó e estava disposto a aceitar que fosse dessa forma. Me perdi em ideias e angústias, depois de concluir que nada me restaria senão uma história registrada no tempo e memória de um Ser infinito. Afinal, “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Fiz deste meu lema e fui em busca de prazeres, acreditando que a vida passaria como um clarão diante da escuridão de uma noite sem lua. Mesmo assim, guardava em mim um vazio incompreensível, uma necessidade de estar em contato com o Ser Superior, um querer amá-Lo e segui-Lo, sem, contudo, senti-Lo. Essa tortura de pensamento, vinculada a uma vida desregrada, me levou a crises dolorosas. Aprendi sobre amor, mas não o sentia realmente. As pessoas eram obstáculos para o progresso pessoal ou seres que, comigo, simplesmente compartilhavam momentos.

Em meados de 2012, depois de conversar com um amigo, comecei a assistir a documentários sobre vida alienígena e minha mente começou a se abrir para outras possibilidades. Depois de um certo tempo, sonhos estranhos começaram a me perturbar, principalmente alguns em que eu guardava certa lucidez, que começaram a ser mais vívidos e constantes. Neste ínterim, resolvi pesquisar sobre sonhos lúcidos e alguns materiais começaram a aparecer na internet, junto com vídeos explicando um pouco sobre projeção astral, algo de que eu não fazia ideia e duvidava das explicações, devido à minha formação materialista.

Eu sofria de dores pelo corpo todo e acreditava que poderia controlar isso por meio da mente. Postulei que, durante o sono, meu inconsciente poderia trabalhar a meu favor durante tais sonhos lúcidos, fazendo meu corpo liberar hormônios que naturalmente controlariam essas dores. Desta forma, eu quis aprender como ter mais sonhos lúcidos, li sobre a visão psico-neurológica envolvida e sobre questões espiritualistas. Apareceram alguns ensinamentos sobre descalcificação da glândula pineal usando-se tons binaurais, e foi exatamente isso que fiz. Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato de eu ouvir um zumbido intermitente que parecia vir de dentro da minha cabeça e, depois de ouvir os tons binaurais, este aumentou de volume. Tinha, com isso, mais sonhos lúcidos e, ao me focar no zumbido intracraniano, era mais fácil e rápido entrar em estado de predisposição para a experiência de desdobramento. Eu me achava livre para ser e fazer o que quisesse. Exatamente assim, eu continuei fazendo e muitas das minhas experiências eram voando por campos verdes ou cidades altamente povoadas, nas quais muitas delas tinham uma forte conotação sexual. Mas uma certa dúvida começou a pairar sobre mim: “E se esses sonhos forem realmente viagens da consciência através de um corpo de energia sutil, menos denso que o corpo físico do estado de vigília?”.

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