14 SENDO CHAMADO DE GUARDIÃO


 As noites continuaram bem intensas e cheias de muito aprendizado. Algumas vezes bem tristes. Numa destas, eu acordei em um lugar que eu desconhecia, nunca tinha andado por lá. Estava tudo escuro e havia bem pouca luminosidade. Eu me sentia grande lá. E as pessoas me olhavam diferente. Eu resolvi olhar para mim e percebi que eu usava uma roupa estranha. Minha pele parecia coberta por uma malha dourada que eu não tinha ideia do que era. Achei bonito mas não fui eu quem colocou aquilo - bom, pelo menos, eu não me recordava disso. Provavelmente por isso as pessoas ali estavam fitando os olhos em mim. 
Logo à frente haviam várias pessoas aglomeradas e uma delas me pareceu familiar. Fui até ela e perguntei se me reconhecia. Ela disse que sim, que havia morrido em um acidente de carro em que bateu em um caminhão. Eu nunca descobri se isso era verdade. Não deu tempo de conversar muito e fazer algumas indagações. As pessoas me olhavam e diziam: “Olha, um guardião!”. Eu não sabia o significado disso e não perguntei também. Devia ser por causa da roupa exótica. 
Eu estava curioso com toda aquela movimentação e por fim, descobri o que era. Uma mulher se aproximou de mim e disse: “Você é um guardião. Precisamos que resolva uma questão. Meu filho está obcecado por aquela jovem e não quer deixá-la em paz. Não conseguimos fazê-lo mudar de ideia. Fale alguma coisa com ele.” A moça parecia sufocada com o jovem e as pessoas ali procuravam afastá-los. Eu não entendi muito bem o caso, não sabia o que estava fazendo ali, mas resolvi dar uma de juiz e apoiar a moça. Cheguei para o homem e disse para ele parar com aquilo. Ele respondeu desdenhosamente que não pararia, pois já que ele sabia que a morte não existia, que ninguém podia fazer nada contra ele. Eu falei que era bom ele saber que a morte não existia mas que tinha coisa pior que a morte, então perguntei: “O que você acharia de ficar 10 mil anos preso em um lugar, longe da moça?” Ele nada respondeu, ficou pensativo. Eu segui meu caminho por entre as pessoas, afinal, eu não podia fazer nada contra ele. Um pessoa veio até mim e me perguntou se  eu não queria ser tipo um correspondente no plano físico. Eu perguntei como seria isso e ele me disse que seria por meio de cartaz, tipo tarô, me mostrando as mesmas e dizendo que era possível nos comunicarmos. Eu não aceitei e saí dali.
À frente, haviam algumas crianças brincando – pelo menos pareciam crianças. Elas se admiravam ao me ver com aquela roupa e eu comecei a ficar com vergonha da situação. Um segundo alvoroço tirou minha concentração quando ouvi algumas pessoas gritarem e correrem. Longe eu vi o motivo. Apareceram alguns cães que pareciam bem raivosos. Eu, tentando proteger as crianças, fui até eles e tentei afastá-los e vieram para cima de mim. Eu pensei em aumentar meu corpo e dar uns solavancos neles. Deu certo. Pisei em alguns e os outros fugiram. Não sei quem criou aquilo. Já vi outros seres no astral depois disso. As crianças me agradeceram e eu resolvi acordar.
É muito comum eu acordar e ao dormir, outra vez, ir parar no mesmo local ou nas proximidades e isto aconteceu nesta noite. Voltei, um pouco distante de onde me encontrava antes e lá estavam aqueles cachorros de novo. Mas eram mais, estava difícil contê-los. Neste momento, aparecem umas mulheres com uns vestidos diferentes. Eram de cor roxa para vinho, azul e marrom. Elas vieram para cima desses cães e afastaram todos. Falaram algumas coisas comigo, me orientando, mas eu estava ocupado demais e perdi o que diziam. Depois agradeceram e sumiram. E assim também eu fiz.
Já retornei, neste local, outras vezes, mas voando. Tem muita gente lá envolta em ações muito ligadas a jogos e a álcool. Eu resolvi fazer uma ventania e bagunçou tudo. Depois saí correndo, rindo da situação. 

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